sábado, 26 de janeiro de 2008

Vocação religiosa

Venho de uma família católica e fervorosa, e além de ter estudado muitos anos em colégio de freiras fui criada por uma tia solteirona (quase) convicta - e digo quase porque muito mais tarde casou, coitada! - e uma vó pra lá de brava. Minha vida era do colégio pra casa e vice-versa. Aos domingos, missa. Sábado, missa. Não-sei-qual-sexta-feira-do-mês, missa. E tome missa!

Claro, frequentando tanta missa lá pelos sete anos eu já decidira o que ia ser quando crescesse. Um dia cheguei pra minha tia e disse, olhos baixos e desenhando uma figura imaginária com o pé no assoalho do quarto dela: "Tia Cida, quando crescer quero ser freira."

Nossa, foi uma glória, já correu minha vó a anunciar às vizinhas a santa vocação da neta. Deve ter sido mesmo um alívio, "criar filha dos outros não é fácil". Nada de namoricos, nada de gravidezes indesejadas, nada de dores de cabeça! Ia ser freira, pronto. Estava tudo resolvido, nada de percalços e surpresas (pra lá de) desagradáveis.

E durante meses não se falou em outra coisa. Tinha visita em casa eu já sabia: lá pelas tantas me chamavam (porque criança não ficava junto com visita dando palpite e fazendo gracinha, não era essa bagunça de hoje não, senhora!) e pediam: "Fala aí pra Dona Fulana (alguma gorda chata com três ou quatro filhas que espichavam o olho pra avaliar o que sairia da boca dessa magricela aqui) que é que você vai ser quando crescer."

Eu já incorporara totalmente o papel e as futuras responsabilidades, de forma que baixava os olhos contritos e respondia numa voz submissa que toda freira deve ter (achava eu) e lascava de um fôlego só: "Vou ser freira."

A gorducha da Dona Fulana arregalava os olhos na mais profunda admiração e depois espichava um olhar de inveja pra minha tia que colocava a mão no peito inchado de orgulho e depois olhava pras filhas dela e soltava um profundo suspiro de resignação.

Isso se repetiu até o dia em que fomos à missa eu e minha tia, e nos sentamos no primeiro banco, como sempre. Antes de começar a missa ela me perguntou: "Já pensou como vai ser sua vida de religiosa?" Nisso entrava o padre pra rezar a missa e eu, com os olhos nele.

Acontece que esse padre chegara há alguns meses à nossa cidade, coincidentemente bem à época de minha súbita conversão à vida religiosa. Era um rapaz lá pela casa dos vinte, alto, moreno, profundos olhos verdes e um sorriso encantadoramente lindo.

E eu respondi: "Sim, vai ser ótimo. Eu e padre Sicrano nos casaremos e teremos muitos filhos." Minha tia parou de acompanhar a missa que começava e me perguntou, duvidando do que tinha ouvido: "Como? Casar com o padre? De onde tirou essa idéia absurda?"

Saí do transe em que estava assistindo ao padre que rezava divinamente uma missa e perguntei: "Por que?" E ela: "As freiras não casam com os padres. Permanecem solteiras como a titia."

Bem, nesse dia caiu por terra a mais nova vocação religiosa da cidade. Se os padres não se casavam com as freiras, então eu ia ser freira pra que? E assim tive minha primeira desilusão, aos 7 anos de idade.

(escrito por Zailda Mendes)

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