domingo, 18 de janeiro de 2009

Volta às aulas

O despertador avisa que mais um ano letivo está começando e jogo as pernas para fora da cama como quem vai realmente levantar, mas segundos depois desabo de novo de volta na cama. As férias estão terminando, lá se foram os dias sem horários, de lanchinhos em frente da televisão.

Vontade de conhecer as turmas novas, o que mais anima no começo do ano são as novidades, tudo é novo. Os cadernos e livros ainda virgens e com cheiro de tinta, as classes limpas e as paredes cheirando a novas. Vou andando devagar até a escola, sentindo o sol na pele e na cabeça se enovelam pensamentos desencontrados, uma certa ansiedade me oprime.

Quando toca o sinal e os alunos começam a entrar na sala com um ar misto de alegria e receio sinto que os motores já estão se aquecendo. Apresento-me, faço uma brincadeira e em poucos minutos estão relaxados e prontos para começar a aprender.

Inicio a aula e começo a fazer perguntas. Falo sobre a Itália e os italianos, a aula é toda em inglês. Dou exemplos e pergunto em inglês a uma aluna louríssima, por dentro e por fora, se o Michelângelo era americano ou italiano.

Momento de pausa para pensar, ela remexe a cabeça e as madeixas louras, depois me pergunta 'quem é Michelângelo'. Um aluno se impacienta e pergunta se ela não sabe mesmo quem é Michelângelo, enquanto eu conto até 10 mentalmente. Depois seu rosto se ilumina e ela conclui, feliz:

- Ah, a tartaruga ninja!

Nesse exato momento sinto que teremos um longo ano pela frete. As férias terminaram.

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sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Os professores do Colégio

Da primeira à quarta séries nossa educação era diligente e cuidadosamente ministrada pelas próprias freiras, que aproveitavam para inserir ensinamentos religiosos em tudo quanto podiam, apesar de algumas de nós nem serem católicas e terem anotado pelos pais em suas cadernetas que não queriam que recebessem educação católica.

Isso era desconsiderado pelas freiras, que inseriam religião sempre que fosse possível e tratavam de eliminar qualquer coisa, mesmo fato científico, que não estivesse de acordo com os ensinamentos da Santa Igreja Católica. Anos mais tarde quando fui estudar em escola estadual, percebi que muita informação me havia sido subtraída por ser considerada subversiva talvez.

Qualquer ensinamento que fosse capaz de nos suscitar pensamentos e reflexões que nos levassem a questionar dogmas, preceitos ou normas da Igreja Católica era simplesmente banido e não tínhamos acesso a ele.

Livros contendo material impróprio (segundo o julgamento delas lá) eram meramente proibidos. Assim livros que são belos representantes da literatura brasileira e portuguesa que hoje são exigidos até para quem vai fazer vestibular, naquela época eram inacessíveis para nós. Quem fosse ao menos suspeito de ter lido, ter recomendado ou mesmo tido um exemplar dos livros banidos nas mãos era severamente punido.

Quando mais tarde fui saber do AI-5 e da censura, a princípio me pareceram coisas naturais, já que fui educada numa instituição que não se dava ao trabalho de rebater críticas, simplesmente as eliminava como impróprias.

Tive problemas na adolescência para escolher meus caminhos e decidir o que era ou não benéfico para mim, acredito que por essa mesma razão. Acostumada a ter um séquito de freiras para decidir por mim, ao sair do colégio e descobrir que dali pra frente eu é que teria que decidir, meu primeiro momento foi de total desorientação.

Da quinta série em diante ainda prosseguiam várias freiras como professoras, mas algumas matérias contavam com pessoas "normais" dando aulas, se bem que sob estrita vigilância das freiras. Ao primeiro sinal de má influência ou desvios da matéria da aula eram sumariamente despedidos e substituídos por outros mais confiáveis.

Nosso contato com o mundo adulto real era portanto bastante restrito, algumas de nós completavam os estudos e entravam para uma faculdade sem saber como se faziam bebês, por exemplo. Imagino que tornavam-se alvo de chacota nas escolas para onde iam. Quando mudei de escola, percebendo o ambiente estranho tratei de ficar de boca fechada e dessa forma consegui passar despercebida, mas outras colegas de infortúnio não tiveram a mesma sorte.

Devido às suas línguas grandes logo deixaram transparecer quem eram e o tamanho de sua ignorância nas "coisas da vida" e suas vidas foram bastante dificultadas e atormentadas pelos colegas de classe. Apesar de ser considerada como boba por algumas freiras e como cínica por outras, de boba e cínica eu nunca tive nada, portanto saí-me muito bem em minha primeira incursão pelo mundo "normal". Tão bem que logo de cara arrumei um namorado, comecei a matar aulas e levei uma bomba. Mas aí eu já estava livre do Colégio.

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domingo, 2 de novembro de 2008

As boas maneiras da futura "fada do lar"

Estudando no colégio tínhamos o privilégio de ter algumas aulas que nenhuma outra escola ministrava, por motivos insuspeitados por nós naquela época. Hoje eu entendo perfeitamente, mas na época a lavagem cerebral ia em estágio tão adiantado e era tão bem sucedida que éramos incapazes de enxergar o que se esfregava em nossos empertigados narizes.

Uma das "matérias" exclusivas de nossa instituição de ensino eram as boas maneiras. Mas eram boas maneiras diferentes, para quando tivéssemos nossos maridos e casa para cuidar. Claro que também éramos instruídas sobre como devíamos nos comportar para conseguirmos esse "prêmio", mas a coisa não parava aí. Segundo nossas orientadoras religiosas e em tudo o mais, depois de conquistar era necessário saber conservar.

Tínhamos um caderno que era escrito por nós mesmas, repleto de anotações que eram ricas em detalhes sobre como deveríamos agir depois de casadas. Sempre esperar o marido com um sorriso e um batonzinho claro na boca. Nunca questioná-lo quanto ao que fazia "lá fora", já que o que importava era o sagrado recesso de nosso lar, ao qual deveria reduzir-se nosso mundinho.

Eram ensinamentos que deveriam orientar nossa vida futura, bobagens apenas, vejo agora, de maior ou menor quilate dependendo de quem ditara aquelas normas de uma santa ignorância colossal e que hoje seriam um insulto a inteligência da mais idiota das criaturas, mas que naqueles anos idos no passado nos pareciam completamente possíveis e até sensatas.

Graças a Deus quando me casei já havia perdido o livro e nem me lembrei de colocar em prática qualquer uma daquelas tolices. Maridos se foram e acredito que mais ainda teriam ido, ou então muito mais depressa se eu seguisse as recomendações de nossas freiras.

Não sei se ainda costumam ensinar coisas assim em colégios de freiras, se ensinam as pobres das moças morrerão todas solteiras porque acho que hoje em dia nem o mais machista dos maridos achará graça em ser casado com um autômato que segue as normas para as quais foi programado, em vez de viver com um ser humano.

Mas no colégio era assim, lembro-me do livrinho que era companheiro de um outro, com capa de napa cortada e decorada por nós mesmas, onde anotávamos as receitas com as quais futuramente encantaríamos e faríamos a delícia de nossos maridos.

Pensando nisso... onde é que foi parar mesmo aquele livro de receitas?

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terça-feira, 8 de julho de 2008

A madre superiora

A madre superiora assombrou meus dias e minhas noites por 8 anos. Durante todo o ensino fundamental era a primeira pessoa que eu via, plantada à porta do colégio ou com uma régua em punho ao pé da escada, medindo as saias das alunas para assegurar-se que não estivessem mais que 5 centímetros acima do joelho.

Com os óculos minúsculos, por cima dos quais nos lançava olhares fulminantes por simplesmente existirmos e sua pesada régua de madeira que não hesitava em deitar sobre a mesa com estrondo pavoroso para nossos ouvidos medrosos, era a figura mais ameaçadora, que tanto povoava meus dias na escola, como meus pesadelos noturnos.

Aos quinze anos - já não estudava mais no colégio - eu estava um dia no portão de minha casa quando uma figura trajada de negro e de longas abas esvoaçantes, encarquilhada ao peso de uma horrenda mala marron aproximou-se, tomou fôlego e depositando a mala no chão, cumprimentou-me. Era a madre superiora.

Meu primeiro impulso foi correr, distanciando-me desse fantasma vindo diretamente da infância para me assombrar em plena luz do dia, mas o pavor paralisou-me. Fitei boquiaberta a estranha figura que me sorria.

Vi à minha frente apenas uma velhinha de óculos, encarquilhada pelo peso da idade, sorrindo que nem boba para uma aparvalhada como eu. Falou algo sobre uma viagem, o peso da mala (na certa insinuando que eu a ajudasse a levá-la até o colégio. Pediu um copo dágua.

Em silêncio fui buscar o copo, e foi com muita força de vontade que impedi-me de cuspir dentro antes de entregá-lo à madre. Ela, a exemplo dos outros seres humanos, tomava água. Percebi que suava, algo que nunca notara antes. Que arfava de cansaço e de calor. Era apenas uma velha.

Tagarelou um pouco mais, e vendo que eu não reagia, disse um "então vou andando", agarrou a mala e partiu. Fiquei olhando aquela velha enrugada e curvada arrastando aquele fardo até que virou a esquina. Era apenas uma velha. Não havia mais razão para ter medo. Eu estava livre e a salvo.

(zailda coirano)

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Começando com o pé esquerdo

A figura mais assustadora que eu conhecia no Colégio era a madre superiora, com sua eterna e imensa régua de madeira dançando ameaçadoramente nas mãos, seus minúsculos óculos por cima dos quais nos deitava olhares que nos gelavam a alma, pois quando aconteciam isso geralmente significava problemas - e dos grandes. Desde cedo fui comtemplada com uma porção maior da antipatia que esta dedicava de forma igualitária às outras alunas, e imagino que tão subida honra originou-se quando eu estava ainda na segunda série primária.

Criança precoce e rodeada de adultos, nunca tive irmãos para brincar e as escassas visitas de primos não satisfaziam minha necessidade de conviver com outros seres humanos, e como nessa época as crianças eram tratadas mais ou menos como animais de estimação, e na falta de amigos imaginários (porque só fui descobrir a possibilidade de criá-los quando já adulta, portanto tarde demais), voltei minha atenção aos livros a partir de 4 anos.

A princípio apenas via as figuras e ficava imaginando histórias para justificar sua presença entre os caracteres impressos, mas aos poucos percebi que aqueles caracteres eram a parte mais importante e quem os decifrava tinha suas compensações. Foi dessa forma que um dia comuniquei à minha tia que já sabia ler. Tinha então 5 anos.

Claro que ela não acreditou (como sempre, duvidava primeiro de tudo o que eu dizia, só mudando de atitude depois de serem apresentadas provas concretas) e partimos então para a apresentação de provas contundentes do fato. Trouxe-me ela um gibi e ante seus olhos esbugalhados e sua boca estupefata, li até onde julguei necessário para convencer minha tia. Ela convenceu-se e permitiu que eu fizesse algumas "exigências", que eram compensações recebidas sempre que eu me comportava da forma correta ou fazia algo que ela considerasse "digno de orgulho".

Pois que o fato de aprender a ler sózinha foi assim considerado e exigi uma cota semanal de gibis e livros de histórias, no que fui prontamente atendida. Com a recente alfabetização minha tia ficou por alguns meses esquecida de aplicar-me corretivos, de forma que eu me sentia no paraíso, deixada à vontade com minha recente coleção de quadrinhos.

Alfabetizada havia a necessidade de continuar meus estudos e ela encaminhou-me para o colégio, em nossa cidade era o local adequado para instruir e encaminhar as meninas de famílias bem nascidas. Não era o meu caso e eu não entendia bem porque merecera a honra de ser educada dentre as colegas tão bem-postas mas a princípio concordei.

Mesmo tendo apenas 6 anos fui aceita numa sala de primeira série, mas não como uma aluna regular e sim como ouvinte. Como ouvinte logo descobri que tinha meus priviégios: se não quisesse fazer alguma atividade, simplesmente cruzava os braços mas quanto a isso não havia problemas, afinal eu era apenas ouvinte. Podia escolher se faria ou não as provas e acabei fazendo todas, de forma que fui admitida (sob os aplausos de minha tia, que não cabia em si de tanto orgulho) na segunda série.

Éramos uma classe privilegiada porque tínhamos como professora a própria diretora do colégio, a irmã Márcia, que até então me tratava com brandura e carinho. Na certa era uma forma de manter-me na escola, pois tão logo minha matrícula foi efetivada (em caráter permanente) mudou totalmente sua atitude comigo. De terna que era, passou a olhar-me com certa antipatia, que eu não entendia por ser apenas uma criança de 7 anos.

Ao que parece, durante aquele ano em que fui apenas ouvinte estava atravessado em sua goela, pois que passou a dispensar-me um tratamento preferencial em relação às outras colegas. Por preferencial entenda-se que eu era sua aluna preferida na hora das broncas e corretivos, mesmo que não os merecesse.

Quando estou nervosa costumo sorrir, rir ou gargalhar, de acordo com o grau do nervosismo, mas um simples sorriso era para ela como a hora da morte, e passou a classificar-me como "cínica", se é que uma criança de 7 anos lá sabe o que é cinismo. Cinismo em minha opinião é bajular uma criança por um ano e depois brindá-la com a mais solene antipatia.

Pois que num certo dia, durante uma aula de ciências, discorria nossa querida professora e diretora irmã Márcia sobre um assunto qualquer do qual não me recordo em absoluto - mesmo porque não despertou meu interesse na época - enquanto eu me perdia em devaneios. Andando por entre as carteiras ela parou ao lado da minha e deve ter chamado meu nome algumas vezes sem que eu desse sinal de tê-la ouvido, de forma que resolveu me acordar e me aplicou um beliscão no braço direito, que me fez cair estrondosamente das nuvens e voltar à dura realidade terráquea.

Assustada com a inesperada agressão devo ter gaguejado uma resposta qualquer à pergunta que ela me dirigia e à medida que ela se afastava olhei para meu braço e no local do beliscão havia agora uma mancha branca de giz em meu casaco azul-marinho. Fiquei fitando aquela muda prova de que aquilo de fato acontecera até que ela finalmente deu pela coisa. Em seu passeio por entre as carteiras, ao passar por mim sussurrou entre dentes:

- Limpe esse casaco.

Fiz que não com a cabeça, ela parou e eu tremi. Levantei os olhos lentamente e lá estava aquele olhar derramando-se por cima dos óculos numa ameaça muda e indecifrável.

- Limpe o casaco - insistiu ela, e sua voz sibilava por entre os dentes.

- Não - gaguejei. E arrisquei ainda mais - Vou mostrar essa marca para minha tia.

- Espere ao final da aula que quero falar com você.

Ante essa ameaça de morte fui deixando minhas coisas mais ou menos arrumadas, de forma que assim que terminou a mal-fadada aula, desabalei numa corrida desesperada porta afora, temendo que me arrancassem à força a marca que provava a agressão.

Cheguei em casa esbaforida e mal minha tia chegou para almoçar desabei num choro sentido e, mostrando-lhe a marca branca, contei o que tinha acontecido. Minha tia, muito séria, disse que ia à escola conversar com a irmã.

Naturalmente esperei na maior ansiedade possível, do alto dos meus sete anos imaginava que minha tia teria esmagado a madre sob o salto dos seus sapatos quando a vi virando a esquina de volta para casa.

Até hoje não sei qual o teor da conversa, mas a partir desse dia percebi que qualquer tentativa de opor-me à madre seria em vão. Qualquer que tenha sido o rumo da conversa, o que sei é que fiquei um mês de castigo, privada de mesada e dos gibis que eu adorava.

(zailda coirano)