sábado, 19 de março de 2011

Lição de casa

1221703752155Lição de casa é aquela coisa chata da qual o professor e os pais fazem questão e que o aluno faz questão de não fazer. Acontece que para aprender – ou descobrir quanto aprendeu – é necessária, mas vá tentar enfiar isso na cabeça de um aluno!

Sempre fiz a minha direitinho – e até levava uns croques quando não lavava as mãos antes de fazer. Era tudo ali no capricho, letra desenhada e se tivesse que apagar, que não deixasse ali nenhum vestígio do crime, ou lá viriam mais sermões…

O mundo gira, as coisas mudam mas algumas coisas parecem imutáveis: o aluno de hoje odeia lição de casa tão ou mais visceralmente que a aluna que eu fui, 40 anos atrás. Com internet, TV, games, baladas (que começam a frequentar aos 13, 14 anos) já não há nem aquela minoria que gostava de apresentar um trabalho caprichado ao professor. Os poucos que fazem não é com aquela vontade, e fazem com o msn ligado.

Segunda-feira, dia de recolher a tarefa de uma classe de quinta série, todos na faixa dos 10, 11 anos. Um deles, uma porcariazinha de pouco mais de 1 metro, mal chamo seu nome se levanta e vem em minha direção. Fica em pé à minha frente e com uma desfaçatez que quase me faz titubear, pigarreia e lasca:

- Esqueci o livro no carro de meu pai e meu cachorro comeu meu livro.

“Ah, não!” – penso eu – “Agora vai me jogar aquela famigerada “the dog ate my homework”!”

E não é que a porcariazinha não se deixa intimidar e mesmo eu arqueando uma das sobrancelhas em sinal de aviso prévio de “problemas” continua:

- Uma parte ele engoliu, mas o que sobrou ficou todo babado, tive que jogar fora.

O garoto leva jeito pra coisa, determino mentalmente que será um grande conquistador daqui a 3 ou 4 anos. Talento para mentir não lhe falta, nem pisca o danado.

Desisto do sermão, a classe já olha a cena com crescente interesse, alguns ensaiam uma risadinha diante de tão talentoso cara-de-pau. O garoto sorri. Pego meu caderno e enquanto rosno um “an-han” boto um “xis” em vermelho na frente do nome do garoto e digo qualquer coisa sobre comprar urgentemente ração para o cão antes que coma o computador, e sigo em frente com minha correção.

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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Verdade ou mentira?

O caríssimo leitor aí pode até achar que estou mentindo quando conto o que me lembro dos tempos de colégio, mas se duvida é porque vive outra realidade. Nem passa por sua cabeça como era naquele tempo, quando não havia televisão pra entortar nosso caráter, internet pra nos expor aos pedófilos. Aliás nem tinha pedófilo, se tinha era com outro nome. A gente chamava tudo de “tarado”, fosse ele interessado em se mostrar em público ou em sapatos. Não havia toda essa “classificação” detalhada que há hoje em dia, acho que até ser tarado era mais simples, sem tanta especialização no mercado.

Era bem simples educar, creio eu. Bastava dizer que não podia e pronto. Se alguém se metesse a besta de fazer o couro comia. E ninguém era denunciado ao conselho tutelar – que nem existia. Criança não tinha direitos, além do de ficar calada. Se abrisse a boca era pra dizer: “Sim, senhor.”

Pedíamos bênção antes de dormir e não íamos pra cama sem nossa última oração do dia, na qual pedíamos a Deus que protegesse nossa família e até os professores que nos torturavam durante o dia - como se eles precisasem de proteção! E quem nos protegia deles?

Professor já não podia bater quando eu estava na escola, mas uns beliscões de vez em quando ou uns croques na cabeça eram considerados fundamentais para um ensino de boa qualidade e também para nos mostrar nosso lugar.

Nosso lugar era nenhum, não podíamos ir à sala ou a qualquer outro ambiente onde houvesse visitas; não podíamos sair sem pedir autorização e fornecer um roteiro detalhado; namorar era quase que um crime, punido com prisão domiciliar; mesada era uma coisa “que os ricos davam a seus filhos” e que portanto não deveríamos nem sonhar em ter; escolher nossas roupas era algo a que só teríamos acesso “quando deixássemos nossa casa e pudéssemos nos sustentar por nossa conta”.

As regras eram impostas e era difícil cumprir a todas – eram muitas e à medida que crescíamos elas aumentavam, já que os perigos também cresciam.

Criança pequena tinha o risco de crescer mal-educada ou de se machucar; na adolescência havia o risco de “nos perdermos”; depois havia o risco de engravidar e assim desgraçar para sempre com nossa reputação e com a honra de nossa família.

Acho até que as crianças tinham muito mais deveres do que os adultos. Ou talvez eles descontassem nos mais fracos todas as pesadas regras que a sociedade lhes impunha. Era uma época de ditadura, de monarquia. Se sabíamos alguma coisa sobre Democracia era o que líamos nos livros de escola e éramos obrigados a recitar sem nexo nas provas orais. Democracia era uma palavra a mais dentre as milhares que éramos obrigados a decorar. Mas que nunca nos permitiam praticar.

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domingo, 18 de janeiro de 2009

Volta às aulas

O despertador avisa que mais um ano letivo está começando e jogo as pernas para fora da cama como quem vai realmente levantar, mas segundos depois desabo de novo de volta na cama. As férias estão terminando, lá se foram os dias sem horários, de lanchinhos em frente da televisão.

Vontade de conhecer as turmas novas, o que mais anima no começo do ano são as novidades, tudo é novo. Os cadernos e livros ainda virgens e com cheiro de tinta, as classes limpas e as paredes cheirando a novas. Vou andando devagar até a escola, sentindo o sol na pele e na cabeça se enovelam pensamentos desencontrados, uma certa ansiedade me oprime.

Quando toca o sinal e os alunos começam a entrar na sala com um ar misto de alegria e receio sinto que os motores já estão se aquecendo. Apresento-me, faço uma brincadeira e em poucos minutos estão relaxados e prontos para começar a aprender.

Inicio a aula e começo a fazer perguntas. Falo sobre a Itália e os italianos, a aula é toda em inglês. Dou exemplos e pergunto em inglês a uma aluna louríssima, por dentro e por fora, se o Michelângelo era americano ou italiano.

Momento de pausa para pensar, ela remexe a cabeça e as madeixas louras, depois me pergunta 'quem é Michelângelo'. Um aluno se impacienta e pergunta se ela não sabe mesmo quem é Michelângelo, enquanto eu conto até 10 mentalmente. Depois seu rosto se ilumina e ela conclui, feliz:

- Ah, a tartaruga ninja!

Nesse exato momento sinto que teremos um longo ano pela frete. As férias terminaram.

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