sexta-feira, 9 de março de 2012

Trabalho escolar

No colégio eu era certinha, estudiosa, aprendia fácil a matemática, a história, a gramática. Mas pra coisa errada eu era lerda que só vendo. Comparando com minhas colegas sabichonas que davam nó em pingo dágua com o pé nas costas – algumas delas até com os dois – eu ficava anos-luz atrás com minha santa ignorância.

Até certo ponto eu achava trabalho em grupo uma chatice, era só a professora dizer que o trabalho era em grupo e já saíam as alunas na carreira pra ficar no grupo das saidinhas. Eu não entendia, mas também não fazia força pra descobrir. Ficava bem sosssegada no meu lugar e quando a irmã perguntava de que grupo eu era, dizia que não era de nenhum, então ela me espichava um olhar de desaprovação e me juntava ao grupo das sem grupo.

Grupo dos sem grupo tem regras próprias, é a rapa do tacho, a sobra, o que ninguém quer ou que não quer ninguém. Então o que a gente queria menos ainda era ver a cara umas das outras, pra não lembrar que estávamos ali num bando de rejeitadas, amontoadas às pressas pelo dedo indicador da professora.

Aí a gente já sabia, combinávamos e uma dava o papel, outra fazia o trabalho e a que tinha a letra mais bonita passava tudo a limpo, se alguma de nós soubesse desenhar fazia uma capa caprichada e a gente papava ali uns pontos extras pela apresentação.

Mas um belo dia, não sei por que cargas dágua eu estava lá contando até 100 e esperando que todas as alunas se encontrassem com as outras alunas com as quais queriam formar um grupo, quando ouço um “psiu”. Olhei e estavam acenando de um grupo, um daqueles das alunas sapecas, e que era também um dos mais disputados.

Fiz que não era comigo, lá no fundo acreditei que não era mesmo. Só podia ser engano ou gozação. Mas não, uma delas chamou meu nome, acenou para que eu me aproximasse. Dei uma de difícil, espichando um olhar de rabo de olho. Insistiram. Devido a insistentes pedidos, fui chegando assim meio a contragosto.

Dessa vez a freira já me apontava para me arrolar para o grupo das enjeitadas quando percebeu que eu já me empoleirara ali, junto com as requisitadas espertinhas. Deu um sorriso amarelo quase abóbora, de quem não acreditava no que via e eu dei um também de “nem eu, madre”.

Marcaram o trabalho para o dia seguinte, à tarde, e lá fui eu. Logo que cheguei achei que estava no endereço errado. Música, refrigerante, quitutes. Era uma festa? Não, sua tonta. Era o trabalho.

Bem, de trabalho não houve nada. Falaram da vida dos outros, falaram de namorados, à certa altura inventaram que iam maquiar-se usando as pinturas da mãe da dona da casa, que providencialmente havia saído. Aí foi demais para mim. Não querendo sair à francesa, mesmo porque não tinha jeito, dei uma desculpa esfarrapada, já estava tarde, eu não trouxera uma blusa, com certeza ia esfriar…

Olharam-me com ar de pena. Saí meio às pressas, ignorando as risadinhas às minhas costas.

Ah, e o trabalho? Uma delas ia fazer à noite, amanhã cedo era só assinar.

No trabalho em grupo seguinte ferrei as quatro patas no assoalho, empacada que nem uma mula velha, só saí do meu lugar quando a madre, com o indicador hirto e incisivo, juntou-me ao grupo de enjeitadas como quem espanta moscas.

Zailda Coirano

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